BRENDA BECKHAM




No futebol moderno, o debate sobre quem merece ser titular nunca foi apenas uma discussão técnica. Quando pensamos em tendências e decisões dentro de um clube, recai sempre uma questão mais profunda: o que pesa mais — a popularidade (e tudo o que dela pode ser extraído) ou o rendimento em campo?

No início dos anos 2000, o Real Madrid viveu um caso paradigmático desse dilema com David Beckham. Mais do que um médio de qualidade inquestionável, Beckham era uma marca global. A sua presença em campo transportava valor para além dos 90 minutos — elevava patrocínios, imagem internacional e retorno comercial. Durante esse período, a pressão por mantê-lo sempre no onze titular não vinha apenas de um critério desportivo, mas de uma lógica estratégica que misturava futebol com marketing e gestão de marca.

Hoje, no Sporting CP, surge um tipo de narrativa análoga em contexto diferente. Brenda Pérez é uma jogadora experiente, com muitos jogos pelo clube e presença consolidada no meio-campo verde e branco. A sua ligação ao Sporting estendeu-se por anos, evidenciada por sucessivas renovações contratuais e pela valorização do seu papel no balneário e na equipa.

Ainda assim, entre muitos adeptos, levanta-se a pergunta que muitos adeptos de outros tempos levantavam com Beckham: a titularidade é fruto de mérito estritamente competitivo ou pesa um valor extra-desportivo — uma presença simbólica no projecto? Possivelmente, com o intuito de atrair adeptos (de Brenda, e não necessariamente do Sporting) às bancadas e aos televisores? Será também em parte por aí, que Rita Fontemanha continua no plantel, para "entumescer" alguns sobre-excitados moços e rebarbados?

Pessoalmente, nunca nada encontrei de questionável em que jogadoras bem-apessoadas como Beatriz Fonseca, Georgia Eaton-Collins, Dani Arques ou Fátima Dutra estivessem ao serviço do clube, pois além da vertente estética, também eram/são das melhores futebolistas no campeonato; mas quando jogadoras que raramente fazem a diferença nos jogos grandes continuam a ver os seus vínculos renovados, ou a serem titulares, em desfavor de jogadoras mais nucleares, confesso-me confuso em entender o critério de gestão que renova com Brendas e Fontemanhas, mas deixa sair internacionais portuguesas, ou que mete "namoradas" em campo. Não há nada errado com o amor, mas afeições pessoais devem permanecer à margem dos deveres para as quais são remuneradas.

A crítica que emerge não é apenas sobre uma jogadora em particular. É sobre um clube que quer (ou alega que quer) ambicionar títulos e consistência competitiva mas que, para muitos, parece às vezes hesitar entre apostar sempre no que tecnicamente rende mais ou manter figuras consolidadas, quer pela sua história no clube, quer pela ligação que criaram com a massa adepta. A frustração não tem de ser uma negação completa da qualidade individual — está mais ligada à sensação de que a equipa, em momentos decisivos, não está a expressar o melhor rendimento possível, e isso gera questionamentos sobre as escolhas feitas em campo.

Por coincidência ou mero azar, José António Camacho optou por deixar David Beckham no banco a 18 de setembro de 2004, perdeu com o Espanyol, e dias depois, apresentou demissão, alegadamente, pressionado por Florentino Pérez (quantos Pérezes tem esta narrativa?) a demitir-se, por não meter a estrela maior em campo.

Em clubes como o Sporting, o impacto competitivo é o que decide campeonatos e eliminações europeias. Quando a equipa oscila, os adeptos tendem a olhar para as opções — quem entra, quem sai, quem joga mais — sob um prisma cada vez mais meritocrático. E aqui reside o nó górdio: o futebol vive de narrativas humanas e de ligação emocional; mas, nos momentos que realmente contam, são as decisões alinhadas com o desempenho que sustentam títulos e respeito desportivo.

Tal como em Madrid, não se trata de demonizar uma figura — trata-se de perguntar: quando um clube decide manter uma jogadora em posição de destaque, essa decisão deriva de avaliação pura de rendimento, ou também do valor que essa jogadora simboliza para o colectivo e para a imagem do clube? E, se essa segunda dimensão tiver peso, até que ponto isso se concilia com a exigência competitiva que os adeptos anseiam? A ser o caso, vale a pergunta: entramos em campo com uma equipa de atletas de alto rendimento, ou com uma equipa de influencers?

Este não é um ataque a ninguém — é, antes, um convite para reflectir sobre o equilíbrio entre popularidade, identidade de equipa e mérito desportivo, um equilíbrio que define quem jogará nas grandes noites e quem ficará à margem quando mais se exigem resultados.

A.C.F.

14/02/2026. 




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