AS CABRAS EXPIATÓRIAS
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Crónicas de um Metro é um espaço que reflecte exclusivamente opiniões e análises sobre matérias de interesse para os sócios e adeptos do Sporting Clube de Portugal, formuladas no exercício do direito constitucional à liberdade de expressão, ao comentário e ao escrutínio das decisões que influenciam a vida do Clube.
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As notícias da saída de Margarida Batlle y Font do cargo de Coordenadora-Geral do Futebol Feminino do Sporting Clube de Portugal chegaram sem grande alarido, como costumam chegar as decisões que uma instituição prefere não explicar em detalhe.
Três épocas depois de assumir a direcção da estrutura, em maio de 2023, a responsável deixa o cargo enquadrada numa (previsível e inevitável, atendendo aos resultados...) "reorganização alargada" das estruturas de apoio às equipas profissionais.
É uma fórmula suficientemente vaga para não comprometer ninguém e suficientemente neutra para não parecer uma admissão de fracasso. Mas os números, esses, não se deixam envolver em eufemismos, e é a partir deles que se deve começar a compreender o que realmente aconteceu nestes seus três anos à frente do futebol feminino leonino.
Três épocas depois de assumir a direcção da estrutura, em maio de 2023, a responsável deixa o cargo enquadrada numa (previsível e inevitável, atendendo aos resultados...) "reorganização alargada" das estruturas de apoio às equipas profissionais.
É uma fórmula suficientemente vaga para não comprometer ninguém e suficientemente neutra para não parecer uma admissão de fracasso. Mas os números, esses, não se deixam envolver em eufemismos, e é a partir deles que se deve começar a compreender o que realmente aconteceu nestes seus três anos à frente do futebol feminino leonino.
Durante a regência de Batlle y Font, o Sporting terminou sempre em segundo lugar na Liga BPI, sempre atrás do Benfica, e a distância pontual entre os dois clubes não parou de crescer: dois pontos na primeira época, oito pontos na segunda época, treze pontos na sua terceira e última temporada. Este não é um padrão que sugira consolidação de um projecto competitivo; é, pelo contrário, o retrato estatístico de uma equipa que son Font... se afastou progressivamente do rival directo, apesar de manter a ambição declarada de o alcançar.
Num desporto onde os títulos são a única moeda que verdadeiramente conta, três segundos lugares sucessivos, com o fosso a alargar-se, dificilmente podem ser lidos como sinal de um trabalho bem-sucedido, por mais que o discurso institucional insista em falar de processo, de construção e de crescimento sustentado.
Num desporto onde os títulos são a única moeda que verdadeiramente conta, três segundos lugares sucessivos, com o fosso a alargar-se, dificilmente podem ser lidos como sinal de um trabalho bem-sucedido, por mais que o discurso institucional insista em falar de processo, de construção e de crescimento sustentado.
Interessa perceber quem foi a pessoa colocada à frente do projecto, porque esse dado ajuda a explicar parte do que se seguiu. Licenciada em Direito e pós-graduada em Direito do Desporto, Batlle y Font entrou no Sporting em 2018 como advogada do departamento jurídico do clube, onde permaneceu durante cinco anos até ser "promovida", em 2023, a coordenadora do futebol feminino, precisamente na altura em que a secção passou a integrar a Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD. Ou seja, a escolha recaiu sobre uma profissional vinda de uma área de suporte administrativo e jurídico, sem trajectória prévia em gestão desportiva. Esta circunstância não é, por si só, uma condenação antecipada, mas ajuda a explicar (e a antever) por que razão a curva de resultados nunca chegou a inverter-se ao longo de três épocas inteiras.
O único troféu conquistado neste período foi uma Supertaça, em 2024, e vale a pena notar quem a conquistou: um conjunto de jogadoras - entre elas Hannah Seabert, a Capitã Ana Catarina Borges, Andrea Norheim, Alícia Correia, Diana Silva, Maiara Niehues, Jacynta Gala, Brittany Raphino, Fátima Pinto e Ana Capeta - que, na sua quase totalidade, acabariam por deixar o clube (como que culpabilizadas como "Cabras Expiatórias") ainda durante a ginocracia da coordenadora. Este pormenor merece destaque porque revela uma tendência mais ampla: ao longo das três épocas, o plantel foi perdendo, de forma recorrente, jogadoras internacionais pelas suas selecções, num movimento de saídas que dificilmente pode ser explicado apenas por factores externos ao clube.
Quando um projecto perde sistematicamente as suas atletas mais qualificadas ou vitoriosas, a pergunta natural não é sobre a vontade individual de cada jogadora, mas sobre o ambiente e as decisões que tornam essas saídas recorrentes.
Quando um projecto perde sistematicamente as suas atletas mais qualificadas ou vitoriosas, a pergunta natural não é sobre a vontade individual de cada jogadora, mas sobre o ambiente e as decisões que tornam essas saídas recorrentes.
Ao mesmo tempo que internacionais iam saindo, duas jogadoras mantiveram-se praticamente intocáveis ao longo de todo o ciclo: Rita Filipa Fontemanha, com contrato sucessivamente renovado apesar de muito poucos minutos de utilização (independentemente de quem fosse o treinador(a)), e Brenda Pérez Soler, titular quase indiscutível, para surpresa de parte considerável dos adeptos que lhe reconheciam dificuldades evidentes perante as exigências físicas da primeira divisão. Esta coexistência entre a saída constante de jogadoras internacionais e a permanência inabalável de duas atletas que a generalidade da opinião pública considerava, no mínimo, medianas, constitui um dos aspectos mais difíceis de justificar de todo o mandato. Não se trata de um julgamento sobre o valor humano de ninguém, mas sobre um critério de gestão desportiva que, à luz dos resultados colectivos, nunca chegou a ser convincentemente explicado ao exterior.
O timing da saída acrescenta uma camada adicional de leitura a este processo. Dias antes de a notícia se tornar pública, Batlle y Font tinha estado nos Estados Unidos, num evento internacional de futebol feminino ("presenças" essas que ela, talvez numa tentativa de se auto-promover, difundia ao máximo nas suas redes sociais), e regressou a publicar, como era hábito seu, um texto nas redes sociais com tom reflexivo sobre liderança, sem qualquer indício do que se avizinhava. Este desfasamento entre o discurso público e a decisão que se seguiria admite essencialmente duas leituras: ou a saída foi decidida por instâncias superiores sem que a própria tivesse sido previamente informada, ou já era do seu conhecimento e optou por não a antecipar publicamente. Em qualquer dos cenários, o enquadramento institucional como simples "reorganização" serve sobretudo para suavizar uma ruptura que os próprios factos, colocados lado a lado, apresentam de forma bem mais directa do que o comunicado sugere.
A substituição também merece atenção. Assume o cargo Bárbara Sofia Paulino, antiga jogadora de futsal com um percurso desportivo mais consagrado do que o da antecessora, ainda que o sucesso enquanto atleta não constitua, por si só, garantia de competência administrativa. No meu entender, trata-se de uma pessoa mais vigorosa e interventiva. Enquanto Batlle y Font primava sobretudo pela discrição e serenidade, as quais, também sempre serão predicados a valorizar em qualquer líder.
Paulino integrou recentemente a candidatura de Nuno Lobo à presidência da Federação Portuguesa de Futebol, uma lista derrotada pelo (discursivo...) Pedro Proença, precisamente o candidato apoiado pelo Sporting.
O facto de o clube ter agora nomeado, para um cargo de responsabilidade, alguém que fez parte da candidatura que os próprios dirigentes leoninos contribuíram para derrotar pode ser uma simples coincidência de percursos, mas também pode ilustrar algo mais estrutural: a pequena dimensão dos círculos de decisão no futebol feminino português, onde clubes, federação e candidaturas se cruzam de forma bem mais intrincada do que aquilo que os comunicados oficiais deixam transparecer.
Paulino integrou recentemente a candidatura de Nuno Lobo à presidência da Federação Portuguesa de Futebol, uma lista derrotada pelo (discursivo...) Pedro Proença, precisamente o candidato apoiado pelo Sporting.
O facto de o clube ter agora nomeado, para um cargo de responsabilidade, alguém que fez parte da candidatura que os próprios dirigentes leoninos contribuíram para derrotar pode ser uma simples coincidência de percursos, mas também pode ilustrar algo mais estrutural: a pequena dimensão dos círculos de decisão no futebol feminino português, onde clubes, federação e candidaturas se cruzam de forma bem mais intrincada do que aquilo que os comunicados oficiais deixam transparecer.
O que fica, no final destes três anos, é um registo relativamente claro e difícil de contestar: uma profissional promovida de uma função jurídica para a gestão desportiva de topo, sem experiência prévia equivalente; três segundos lugares consecutivos numa competição de duas "éguas"; um fosso pontual que durante o Batlle Fontismo cresceu de forma constante em vez de diminuir; um único título menor, conquistado por um grupo de jogadoras entretanto dispersas por outros clubes; e uma saída sabida em simultâneo com a identificação da substituta, o que raramente é compatível com uma decisão tomada de forma pacífica e amadurecida ao longo do tempo. Nenhum destes elementos, isoladamente, seria suficiente para um veredicto definitivo. Em conjunto, formam um padrão que dificilmente pode ser lido como um sucesso, por mais generosa ou benelovente que seja a interpretação.
Esta situação particular reflecte, na verdade, um problema mais antigo e mais vasto do Sporting: a gestão de recursos humanos das suas estruturas técnicas, marcada, ao longo de anos e mesmo décadas, pela manutenção de profissionais cujos percursos raramente despertaram interesse noutros clubes.
O caso de Batlle y Font não é excepcional dentro dessa história; é, isso sim, mais um capítulo de um padrão recorrente, em que a promoção interna substitui frequentemente a procura activa de competência comprovada no mercado.
A nova época arranca já na primeira semana de Agosto, com uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, sob nova coordenação e, muito provavelmente, com o Benfica novamente à frente no que concerne a potencial, como sucede desde há seis anos.
A questão que três épocas não conseguiram responder continua, portanto, em aberto: quando é que o Sporting conseguirá, de facto, aproximar-se do lugar que as suas ambições declaradas continuam a reivindicar?
A Dra. Margarida Batlle y Font é uma mulher inteligente (em algumas métricas...) e espero que a SAD melhor a saiba enquadrar no futuro. A sua saída do futebol feminino é um alívio, mas a sua total saída dos quadros do Sporting seria excessiva.
Acredito igualmente que a queda de Batlle y Font irá resultar em Rita Fontemanha (finalmente) deixar a folha salarial do Sporting, e que Brenda Pérez irá deixar de ser titular (em desfavor de Samara Lino e Joana Martins) no Sporting, e então, sim, teremos algo que todas as jogadoras e adeptos poderão respeitar, Meritocracia de cariz unicamente futebolístico!
"Dia sim, dia não, trabalha-se no duro, metendo-a e tirando-a, ao longo de toda a semana. Por cada minuto de labor, é necessário 1 minuto de brincadeira, mas é sempre mais fácil quando há competência e mérito."
A.C.F.
04/07/2026.
O caso de Batlle y Font não é excepcional dentro dessa história; é, isso sim, mais um capítulo de um padrão recorrente, em que a promoção interna substitui frequentemente a procura activa de competência comprovada no mercado.
A nova época arranca já na primeira semana de Agosto, com uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, sob nova coordenação e, muito provavelmente, com o Benfica novamente à frente no que concerne a potencial, como sucede desde há seis anos.
A questão que três épocas não conseguiram responder continua, portanto, em aberto: quando é que o Sporting conseguirá, de facto, aproximar-se do lugar que as suas ambições declaradas continuam a reivindicar?
A Dra. Margarida Batlle y Font é uma mulher inteligente (em algumas métricas...) e espero que a SAD melhor a saiba enquadrar no futuro. A sua saída do futebol feminino é um alívio, mas a sua total saída dos quadros do Sporting seria excessiva.
Acredito igualmente que a queda de Batlle y Font irá resultar em Rita Fontemanha (finalmente) deixar a folha salarial do Sporting, e que Brenda Pérez irá deixar de ser titular (em desfavor de Samara Lino e Joana Martins) no Sporting, e então, sim, teremos algo que todas as jogadoras e adeptos poderão respeitar, Meritocracia de cariz unicamente futebolístico!
"Dia sim, dia não, trabalha-se no duro, metendo-a e tirando-a, ao longo de toda a semana. Por cada minuto de labor, é necessário 1 minuto de brincadeira, mas é sempre mais fácil quando há competência e mérito."
A.C.F.
04/07/2026.
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Crónicas de um Metro é um espaço que reflecte exclusivamente opiniões e análises sobre matérias de interesse para os sócios e adeptos do Sporting Clube de Portugal, formuladas no exercício do direito constitucional à liberdade de expressão, ao comentário e ao escrutínio das decisões que influenciam a vida do Clube.

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