MÉRITOS ALHEIOS
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O Benfica sagrou-se hexacampeão nacional de futebol feminino.
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Seis títulos consecutivos, uma sequência que não tem paralelo na história da modalidade em Portugal, e que coloca o clube da Luz numa posição de hegemonia tão consolidada que qualquer interrupção desta sequência passará inevitavelmente a ser analisada com a mesma precisão com que se analisa agora o mérito da sua construção.
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A questão que merece ser colocada, com clareza e sem eufemismos, é a seguinte: de quem é, verdadeiramente, o mérito desses seis títulos?
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A resposta exige que se separe aquilo que é relação pública daquilo que é realidade desportiva.
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Fernando Tavares foi vice-presidente do Benfica para as modalidades durante os primeiros cinco anos desta era de domínio.
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Foi sob a sua orientação que o projecto cresceu, que o investimento se fez, que o ranking europeu do clube subiu da posição 97 para o décimo lugar, e que o Benfica atingiu os quartos de final da Liga dos Campeões.
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Foi sob a sua gestão que a treinadora Filipa Patão foi reconhecida entre as seis melhores do mundo, e que um jogo do Benfica feminino chegou a reunir 27.000 espectadores na Luz.
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O próprio Fernando Tavares, após a sua saída, disse publicamente o que pensava sobre a direcção que o projecto estava a tomar: que o clube estava a desinvestir, que a perda de jogadoras como Kika Nazareth, Ana Vitória e Cloé Lacasse eram saídas irreparáveis, e que, sem uma inversão desta política, o que se seguiria seria um nivelamento por baixo.
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Palavras de alguém que conhece o projecto por dentro, e que não tem razões para o elogiar em excesso.
Mónica Susana Jorge chegou ao Benfica em Novembro de 2025, já com cinco dos seis títulos no bolso da instituição que a contratou.
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Herdou uma equipa treinada por Ivan Baptista, uma estrutura construída ao longo de anos por outra liderança, e um sexto campeonato que estava, na prática, em curso quando tomou posse.
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O título que o Benfica acrescentou à colecção esta época pertence, em termos de arquitectura desportiva, ao trabalho que antecedeu Mónica.
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Isto não é uma opinião.
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É a lógica elementar de qualquer processo de gestão: quem chega a meio de uma época não projecta nem constrói — integra e, no melhor dos casos, gere e tenta não perturbar.
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A questão verdadeira coloca-se agora.
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A época 2026/27 será a primeira inteiramente sob a alçada de Mónica Jorge!
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As decisões tomadas durante este Verão são as primeiras que lhe pertencem de forma inequívoca, e é por elas que deverá ser avaliada e responsabilizada sem a ambiguidade de créditos partilhados com quem a precedeu.
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O que se observa até ao momento é uma saída significativa de jogadoras.
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Cristina Martín-Prieto, que foi a melhor marcadora e a melhor jogadora da Liga BPI na época 2024/25, com 30 golos em 37 jogos, não faz parte dos planos para a próxima temporada.
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A decisão é defensável do ponto de vista dos números da segunda época - 5 golos em 27 jogos, um desempenho que ficou muito aquém do esperado - mas a gestão de uma atleta desta natureza, entre a promessa de renovação e a ruptura definitiva, é também uma responsabilidade de quem ocupa o cargo de direcção.
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Rute Costa, guarda-redes internacional por Portugal, saiu por acordo de rescisão em janeiro último, já no consulado de Mónica.
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Também Andrea Falcón está de saída do Benfica. A internacional espanhola termina contrato a 30 de junho, encerrando uma passagem iniciada em 2023 que, apesar de marcada por uma longa ausência devido a lesão, lhe permitiu integrar o grupo que conquistou uma Liga BPI, uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça.
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O clube destacou oficialmente o seu espírito de sacrifício e resiliência, mas a sua saída representa mais uma baixa num plantel que, neste defeso, tem assistido à partida de várias jogadoras com experiência e currículo vencedor.
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Cinco jovens - Letícia Almeida, Marta Salvador, Zoe Matthews, Daniela Areia Santos e Carolina Ferreira - terminaram os contratos sem renovação.
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E depois há o caso de Carole Costa.
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A defesa central de 36 anos era uma das figuras históricas deste projecto.
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Capitã, líder dentro do balneário, presença em todos os seis campeonatos conquistados entre 2020/21 e 2025/26.
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Um currículo que inclui também duas Taças de Portugal, cinco Taças da Liga e duas Supertaças.
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188 presenças com o manto sagrado e 35 golos - incluindo 10 na Liga BPI na última época, onde foi das melhores marcadoras da prova.
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A jogadora mais internacionalizada de sempre por Portugal: 191 jogos pela Selecção Nacional, 25 golos.
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O comunicado oficial do Benfica diz que a ligação contratual termina a 30 de Junho, "seguindo a futebolista novo rumo na sua carreira."
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A versão que circula na imprensa é que Carole Costa não aceitou renovar.
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Mas há uma camada adicional que não deve ser ignorada.
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Circula informação — atribuída a uma fonte próxima da jogadora - de que o clube até quis renovar, mas que a pressão gerou um conflito que acabou por inviabilizar o desfecho. Não é informação confirmada.
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Mas a coincidência entre os rumores internos e a natureza das saídas que se têm acumulado ao longo desta janela levanta uma questão que não é de desprezar: até que ponto o ambiente criado pela nova direcção está a contribuir para a erosão do plantel?
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O que é certo é que Carole Costa sai do Benfica rumo à Arábia Saudita.
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E sai sem o reconhecimento público que a dimensão da sua carreira justificaria.
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A saída de Christy Ucheibe merece igualmente atenção particular.
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A internacional nigeriana esteve no Benfica durante seis épocas, chegou com 19 anos, disputou 179 jogos, ganhou os seis campeonatos, foi campeã africana em 2024, e era uma das presenças mais consolidadas e reconhecidas do plantel.
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O Benfica apresentou proposta de renovação.
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Ucheibe recusou, atraída por condições financeiras superiores vindas da Arábia Saudita.
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A saída não é imputável a uma decisão de dispensar, mas a incapacidade de reter uma jogadora deste perfil, com este historial de lealdade ao clube, levanta questões sobre a capacidade de o Benfica competir financeiramente para manter as suas figuras centrais.
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Fernando Tavares já havia identificado exactamente esta tendência, em Novembro do ano passado, quando advertiu que o desinvestimento conduziria à erosão do plantel.
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A saída de Ucheibe é mais um dado nessa direcção.
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O perfil de Mónica Jorge é bem conhecido no meio.
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Seleccionadora nacional entre 2007 e 2011, foi a primeira mulher a assumir funções de directora na Federação Portuguesa de Futebol, cargo que ocupou de 2012 a 2024.
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Doze anos na estrutura institucional do futebol português, numa posição de grande visibilidade simbólica.
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O próprio Fernando Tavares, quando o seu nome foi avançado para o cargo no Benfica, declarou que preferiria um perfil mais disruptivo - palavras que, neste contexto, têm um peso específico, vindo de quem construiu o projecto.
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Mais recentemente, em Março deste ano, Tavares criticou uma publicação de Mónica Jorge nas redes sociais, depois da vitória sobre o Sporting de Braga que apurou o Benfica para a final da Taça de Portugal, dizendo que a frase escolhida pela directora podia ser lida como um sinal de desalinhamento interno, e questionando se o clube estaria a aproximar-se da lógica institucional dominante em detrimento da identidade disruptiva que havia impulsionado o sucesso.
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São questões legítimas, colocadas por alguém com autoridade directa sobre o tema.
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O que a época 2026/27 colocará à prova não é a popularidade de Mónica Jorge, nem o reconhecimento institucional de que goza.
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Colocará à prova a sua capacidade de gerir, de contratar, de reter, de estabelecer uma identidade desportiva que seja sua.
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O hexacampeonato, ao contrário do que a narrativa pública pode sugerir, não lhe pertence.
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Foi herdado.
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A partir de agora, tudo o que vier a acontecer pertencer-lhe-á inteiramente.
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A herança de um projecto vitorioso é um ponto de partida privilegiado.
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Mas é também uma armadilha.
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Quem herda o mérito alheio, herda igualmente a responsabilidade de o continuar.
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E essa responsabilidade, pela primeira vez, é exclusivamente de Mónica Jorge.
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Há ainda um elemento que não deve ser ignorado ao avaliar o arranque desta gestão.
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Quando Mónica Jorge publicou nas redes sociais, após a vitória que garantiu a presença na final da Taça de Portugal, a frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset — "Eu sou eu e as minhas circunstâncias, e se não as salvo, não me salvo a mim mesmo" -, Fernando Tavares leu-a como uma mensagem sobre as condições que herdou, e não como uma celebração colectiva.
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Interpretou-a como uma declaração de que havia circunstâncias que não eram as ideais, e que essas circunstâncias precisavam de ser corrigidas para que o projecto se salvasse.
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Seja qual for a interpretação correcta, o que a publicação revelou foi que a nova directora sentiu necessidade de gerir a narrativa da sua própria chegada publicamente - o que raramente é sinal de que a integração correu de forma serena e sem fricções internas.
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São as perguntas que qualquer dirigente desportivo deve aceitar como legítimas.
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Para Fernando Tavares, as respostas estão no registo de sete anos de crescimento documentado.
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Para Mónica Susana Jorge, o registo começa agora.
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E começa com mais saídas do que entradas, com a memória de um hexacampeonato que Mónica não construiu, e com a responsabilidade, finalmente exclusiva, de provar que o projecto está em boas mãos.
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A.C.F.
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