CICLO ANUAL DAS SUBTRACÇÕES
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A notícia chegou como chegam muitas notícias de mercado. Sem conferência de imprensa. Sem grandes proclamações. Sem sequer confirmação oficial.
Mas há notícias cujo verdadeiro significado não reside naquilo que anunciam. Reside nas perguntas que obrigam a fazer.
A possível saída de DANIELA ARQUES para o London City Lionesses pertence claramente a essa categoria. Porque, se vier a confirmar-se, o Sporting não estará apenas a perder uma jovem internacional espanhola que conquistou espaço na sua equipa principal. Estará, acima de tudo, a confrontar-se com uma dúvida que acompanha o futebol feminino leonino há demasiado tempo e que continua sem encontrar uma resposta convincente.
A equipa está verdadeiramente a crescer.
Ou continua apenas a sobreviver ao mercado?
Segundo a imprensa espanhola, existe já um princípio de acordo entre os dois clubes para a transferência da média de apenas vinte anos, depois de uma época em que ultrapassou os dois mil minutos de utilização e participou em trinta e dois encontros. Trata-se de uma jogadora ainda em fase de afirmação, mas suficientemente valorizada para despertar o interesse de um projecto que, em poucos meses, passou de recém-promovido à Women's Super League para um dos investidores mais agressivos do futebol feminino europeu.
Naturalmente, não há motivo para censurar a atleta.
Poucas futebolistas recusariam um projecto com recursos financeiros praticamente incomparáveis para a realidade portuguesa e que, além disso, conseguiu atrair nomes como Alexia Putellas, Mary Earps, Delphine Cascarino, Kadidiatou Diani, Grace Geyoro ou Mapi León. Perante um cenário desta dimensão, qualquer profissional tem o direito, e até o dever, de ponderar seriamente a oportunidade que lhe é apresentada.
O problema, portanto, não está em Daniela Arques.
O problema está no Sporting.
Ou, mais concretamente, na incapacidade que o clube continua a revelar para transformar boas equipas em projectos duradouros. Porque contratar talento é indispensável, mas conservar esse talento é aquilo que verdadeiramente distingue as equipas que competem das equipas que dominam.
E é precisamente aqui que a discussão deixa de ser sobre uma jogadora para passar a ser sobre um modelo.
A eventual saída de Daniela Arques não surge isolada. Antes dela partiram outras futebolistas importantes. Antes desta notícia já existiam dúvidas sobre a capacidade do Sporting para consolidar um núcleo competitivo ao longo de várias épocas. Já existia quando publiquei "A ARITMÉTICA DO IMOBILISMO". Antes desta negociação já muitos adeptos tinham a sensação de que cada Verão representava menos um momento de aperfeiçoamento do plantel do que um novo exercício de reconstrução.
É um padrão que começa a tornar-se demasiado evidente para ser explicado apenas pelas circunstâncias próprias do mercado.
Os protagonistas mudam.
Os comunicados sucedem-se.
As fotografias de apresentação renovam-se.
Mas a sensação permanece praticamente inalterada. O Sporting entusiasma os seus adeptos com uma contratação, vê uma jogadora afirmar-se, cria a expectativa de que finalmente existe uma base sólida para crescer e, pouco tempo depois, reencontra-se na obrigação de explicar (e substituir) mais uma saída importante. São as Nevena Damjanovićs, são as Tatianas Pintos, são as Fátimas Dutras, são as Olivias Smith, são as BEATRIZES FONSECAS, são as Carole Costas, etc.
Quando este ciclo acontece uma vez, pode falar-se de coincidência. E é normal que um projecto desportivo assente sobre um ciclo de 3, 4 ou 5 anos.
Mas quando acontece repetidamente e todos os verões, deixa de ser coincidência para começar a parecer um método, ou o reflexo de uma mentalidade que entende o Futebol Feminino como um projecto menor.
Há poucas semanas, o clube decidiu encerrar um ciclo na coordenação do futebol feminino. Independentemente da avaliação que cada adepto faça ao trabalho de MARGARIDA BATLLE Y FONT, era evidente que três segundos lugares consecutivos e uma distância pontual cada vez maior para o Benfica justificavam uma mudança de liderança. Mas a substituição de uma coordenadora, por si só, nunca resolveria problemas cuja origem pudesse ser mais profunda ou endémica.
Talvez seja precisamente isso que esta notícia nos obriga a discutir.
Porque a coordenadora mudou.
Mas as perguntas continuam (quase) exactamente as mesmas.
O treinador Micael Sequeira permanece. A ambição proclamada continua a passar pela aproximação às vitórias, tal como há um ano, tal como há 20 meses... mas a dissonância entre os discursos de agosto e os resultados de maio vai igualmente aumentando. O discurso mantém toda a legitimidade. Contudo, existe uma condição prévia para qualquer projecto que aspire verdadeiramente a vencer de forma consistente.
Essa condição chama-se estabilidade.
As equipas que constroem ciclos vencedores raramente vivem dependentes da capacidade de substituir. Crescem porque acumulam qualidade, preservam referências, mantêm automatismos e permitem que o talento amadureça dentro da própria estrutura. Contratar bem continua a ser importante. Conseguir manter quem se contratou é, provavelmente, ainda mais decisivo.
E talvez seja precisamente essa palavra que continua a faltar ao Sporting.
Acumulação!
Não acumulação de jogadoras por simples inércia, mas acumulação de qualidade, de experiência comum, de conhecimento mútuo e de estabilidade competitiva. Porque é essa continuidade que, normalmente, separa uma boa equipa de uma equipa campeã.
É por isso que a eventual saída de Daniela Arques merece uma reflexão mais profunda do que a habitual discussão sobre quem chegará para ocupar o seu lugar. A verdadeira questão nunca foi encontrar substitutas. A verdadeira questão é perceber porque continua o Sporting, Verão após Verão, obrigado a procurá-las.
A.C.F.
A.C.F.
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