DIANA SILVA: QUANDO A MATERNIDADE ENTRA EM CAMPO
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Diana Silva está grávida.
Comecemos pelo óbvio, que por vezes precisa de ser dito antes de começarmos a discutir o menos evidente.
Parabéns, Dra. Diana!
A gravidez de uma futebolista não é um problema que o futebol tenha de resolver. É uma circunstância da vida que o futebol profissional terá de aprender a acomodar.
O Benfica diz que acompanhará Diana Silva, adaptará o seu treino e recorrerá às diferentes áreas do departamento de saúde e performance. É exactamente o que se espera de um clube profissional.
Mas há uma diferença entre proteger os direitos de uma jogadora e garantir que esses direitos não acabam por se transformar numa desvantagem profissional.
É aí que começa a verdadeira questão.
Não sabemos ainda o que acontecerá a Diana Silva quando regressar. E é precisamente por isso que não devemos antecipar acusações. Devemos, isso sim, formular a pergunta antes de conhecermos a resposta.
O que acontece quando uma jogadora regressa da maternidade e descobre que, entretanto, o futebol seguiu em frente?
Outra jogadora pode ter conquistado o seu lugar. Uma contratação pode ter funcionado. O treinador pode ter encontrado uma solução que considera superior.
Nesse caso, Diana poderá perder a titularidade sem que exista qualquer injustiça. O futebol não distribui lugares por antiguidade nem por simpatia.
Mas existe outra possibilidade.
A jogadora pode estar apta, preparada e competitiva e, ainda assim, encontrar uma reserva que não existia antes da gravidez.
É nesse ponto que uma decisão desportiva pode transformar-se numa discriminação.
A distinção é simples. O resultado pode ser exactamente o mesmo, mas a razão não.
E é por isso que esta discussão não deveria começar no dia em que Diana perder um lugar. Deveria começar... agora!
O futebol feminino pretende ser profissional. Muito bem. Isso significa mais dinheiro, melhores condições e maiores audiências. Mas profissionalização também significa criar respostas para problemas que o futebol masculino não enfrenta da mesma maneira.
A maternidade é um deles.
Um clube investe numa jogadora. Paga-lhe salário, prémios, preparação e acompanhamento. A jogadora engravida e fica temporariamente indisponível. O clube continua obrigado a respeitar os seus direitos, mas a competição não fica suspensa à espera do seu regresso.
A equipa precisa de jogar.
O que faz o clube?
Contrata outra futebolista? Promove uma jovem? Reorganiza o plantel? Aceita perder rendimento durante alguns meses?
Não existe uma resposta perfeita. Mas a ausência de uma resposta é também uma resposta, e geralmente não é uma boa.
É por isso que merece discussão a criação de mecanismos excepcionais que permitam aos clubes substituir temporariamente a função desportiva de uma jogadora ausente por maternidade, sem substituir a própria jogadora.
Um empréstimo temporário, sem opção de compra, poderia ser uma hipótese. Não sei se seria a melhor. Talvez sejam necessárias outras soluções.
O ponto essencial é outro.
Se o futebol feminino quer os benefícios da profissionalização, terá também de aceitar as obrigações que ela impõe.
Há, porém, uma questão ainda mais delicada.
Poderá a maternidade influenciar a decisão de contratar uma jogadora?
Não há qualquer fundamento para dizer que o Benfica pense dessa maneira. Seria irresponsável transformar uma possibilidade numa acusação.
Mas os clubes são organizações que calculam custos e riscos. Uma ausência prolongada representa um custo desportivo. Se não existirem mecanismos para o absorver, não é absurdo imaginar que alguém possa começar a incluí-lo no cálculo.
É justamente por isso que as regras importam.
Não para proteger os clubes das jogadoras, nem as jogadoras dos clubes. Para impedir que uma circunstância legítima da vida se converta numa penalização profissional silenciosa.
Diana Silva pode regressar ao mesmo nível. Pode regressar melhor. Pode precisar de tempo.
Tudo isso pertence ao futebol e, por ora, ao campo da especulação
O Benfica terá de avaliar o rendimento. O treinador terá de escolher. Diana terá de reconquistar, como qualquer outra jogadora, o seu espaço.
Mas uma coisa é perder o lugar porque outra jogadora é melhor.
Outra é perdê-lo porque se tornou mãe.
A primeira chama-se competição.
A segunda... teria outro nome.
Por isso, não faria desta gravidez uma acusação ao Benfica. Ainda não existe fundamento para tal.
Também não faria dela apenas uma bonita notícia pessoal, como se a questão terminasse nos parabéns.
O verdadeiro teste começará quando Diana Silva voltar.
Não estará no comunicado do Benfica.
Estará nos minutos.
Nas oportunidades.
Na avaliação do treinador.
E na resposta a uma pergunta que o futebol feminino terá de enfrentar cada vez mais vezes.
Conseguiremos construir uma modalidade verdadeiramente profissional sem transformar a maternidade no preço oculto de uma carreira?
Diana Silva poderá ajudar-nos a descobrir a resposta.
E talvez o mais importante seja que, quando regressar, ninguém precise de perguntar se ser mãe lhe custou um lugar.
A.C.F.
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