PASSIVO DA SAD DISPARA PARA 350 MILHÕES.

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Há números que impressionam pela sua dimensão.

E há números que impressionam pelas perguntas que deixam por responder.

O último Relatório e Contas do Sporting pertence claramente à segunda categoria. À primeira vista, os resultados parecem oferecer uma fotografia extremamente positiva da saúde financeira do clube. Um lucro consolidado superior a 21M€, quase cinquenta vezes superior ao do exercício anterior, é um indicador que qualquer administração teria motivos para apresentar com satisfação.

Mas a contabilidade, tal como a política, raramente se resume aos títulos.

Os números dizem sempre alguma coisa. O problema é que quase nunca dizem tudo.

É verdade que o Sporting apresentou um resultado líquido muito expressivo. Também é verdade que esse desempenho beneficiou do crescimento das receitas e da valorização desportiva alcançada nos últimos anos. Contudo, reduzir a análise a esse dado seria ignorar um elemento decisivo. Uma parte muito significativa desse lucro nasceu do encerramento de um longo processo de reestruturação financeira, nomeadamente da recompra antecipada dos VMOC.

Não existe qualquer crítica a essa decisão. Pelo contrário. Parece-me ter sido uma opção financeiramente inteligente e estrategicamente acertada.

O problema surge apenas quando se confundem duas realidades distintas.

Uma coisa é um clube gerar riqueza através da sua actividade normal, da exploração comercial, das receitas recorrentes e da sua capacidade competitiva. Outra, bastante diferente, é apresentar um resultado extraordinário que resulta de uma operação financeira excepcional, dificilmente repetível em exercícios futuros.

As duas situações são positivas.

Mas não significam exactamente a mesma coisa.

É precisamente essa distinção que me parece essencial para interpretar este relatório com maior prudência.

Ao mesmo tempo que o Sporting anunciava um dos melhores resultados financeiros da sua história recente, o passivo da SAD aumentava mais de 40M€, ultrapassando a barreira dos 350M€. Também aqui a explicação é conhecida e, em larga medida, compreensível.

O Sporting investiu.

Investiu em Viktor Gyökeres, em Morten Hjulmand e noutros jogadores que acabariam por elevar significativamente o nível competitivo da equipa. Seria intelectualmente desonesto ignorar que esse investimento produziu resultados. O Sporting voltou a conquistar campeonatos, valorizou activos e recuperou uma dimensão competitiva que durante largos anos lhe escapou.

Os grandes jogadores custam dinheiro.

Nunca foi essa a questão.

A questão começa apenas um passo mais à frente.

Como é sustentado esse investimento?

É aqui que emerge um padrão que atravessa praticamente toda a presidência de Frederico Varandas. O modelo parece funcionar segundo um mecanismo relativamente simples. O clube identifica talento, investe nesse talento, potencia o seu valor desportivo, vende-o por um montante significativamente superior e utiliza parte dessa receita para reiniciar o processo.

Até agora, o modelo revelou-se eficaz.

Os resultados desportivos comprovam-no.

Mas será suficiente para lhe chamar estabilidade financeira?

Ou estaremos perante uma sucessão de reconstruções extremamente competentes, mas reconstruções ainda assim?

A diferença pode parecer apenas terminológica.

Na realidade, é bastante mais profunda.

Frederico Varandas tem insistido, com razão, em conceitos como sustentabilidade, património, solvabilidade e competitividade. São objectivos que dificilmente merecem contestação. Qualquer presidente responsável procuraria exactamente esse equilíbrio.

O problema é que os recursos nunca são infinitos.

Mais cedo ou mais tarde, todas as administrações são obrigadas a estabelecer prioridades.

E é precisamente nesse momento que surge a pergunta mais interessante.

Quando o investimento na equipa entra em tensão com o investimento patrimonial, qual dos dois acaba verdadeiramente por prevalecer?

Nos últimos anos, o Sporting recuperou activos importantes, como o Alvaláxia, manifestou interesse na recuperação do Holmes Place e reforçou significativamente o património do clube. São decisões que poderão produzir benefícios durante décadas e que reforçam a autonomia patrimonial da instituição.

Mas o património existe para servir o futebol.

Ou será o futebol que continua a financiar o património?

Não é uma pergunta confortável.

Mas parece uma pergunta legítima.

Porque coincide precisamente com um período em que o Sporting continua obrigado a realizar vendas muito significativas para manter a capacidade de investimento no plantel.

Se a robustez financeira tem vindo efectivamente a aumentar, não deveria essa robustez traduzir-se, também, numa menor dependência da venda dos principais activos desportivos?

Talvez esta seja, afinal, a pergunta mais importante que este relatório suscita.

Não saber se o Sporting apresentou lucro.

Isso é evidente.

A verdadeira questão consiste em perceber se o Sporting está hoje menos dependente de vender os seus melhores jogadores do que estava há cinco anos.

Porque essa talvez seja a medida mais rigorosa da verdadeira independência financeira.

Se a resposta continuar a ser negativa, estaremos certamente perante uma gestão competente, prudente e capaz de criar valor. Mas talvez ainda não possamos falar de um clube plenamente emancipado das receitas extraordinárias geradas pelo mercado de transferências.

Aliás, a evolução do exercício seguinte ajuda precisamente a enquadrar esta reflexão.

O lucro caiu de forma muito significativa, o passivo voltou a crescer e regressaram explicações contabilísticas que demonstram como determinados resultados estavam associados a circunstâncias excepcionais e não necessariamente a uma nova normalidade financeira.

Nada disto invalida os méritos da administração.

Apenas aconselha prudência nas conclusões.

Os resultados financeiros do Sporting continuam sujeitos a oscilações relevantes, fortemente influenciadas tanto pelas operações extraordinárias como pelo sucesso do mercado de transferências.

Talvez seja inevitável.

Talvez seja, inclusivamente, o único modelo disponível para um clube português que pretende competir com equipas oriundas de campeonatos incomparavelmente mais ricos.

Se assim for, importa dizê-lo sem complexos.

O Sporting já não vive apenas da sua capacidade para ganhar jogos.

Vive também da sua capacidade para transformar jogadores em activos financeiros de elevado valor.

E essa realidade altera inevitavelmente a forma como avaliamos o próprio sucesso desportivo.

Ganhar campeonatos continua a ser indispensável.

Mas vender bem tornou-se, quase inevitavelmente, uma das condições para continuar a ganhá-los.

Talvez Frederico Varandas tenha razão quando defende que este é o único caminho possível.

Mas, se esse caminho exige reconstruir parte significativa da equipa quase todos os Verões, então talvez o verdadeiro objectivo já não seja construir uma equipa histórica.

Talvez seja construir, sucessivamente, várias grandes equipas.

À primeira vista, as duas ambições parecem praticamente idênticas.

Mas, olhando com alguma atenção, percebe-se que não são exactamente a mesma coisa.

A.C.F.

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