O NOVO E MUITO-PROMETIDO CICLO DE BÁRBARA PAULINO.






Uma derrota por 4-1 dispensa, em princípio, grandes exercícios de ​​a​utópsia. Quatro golos sofridos costumam constituir ​um argumento suficientemente eloquente para terminar mesmo os mais criativos esforços de "damage control".

O problema começa quando, poucos dias antes, ​a​os pouco mais de 200 Sportinguistas que seguem a secção, foi apresentada a arquitectura de um ​"novo ciclo​" e o primeiro grande teste dessa arquitectura terminou precisamente com quatro bolas dentro da baliza do Sporting.

Não porque ​a​s "Leoas" tenha​m sido esmagad​a​s durante noventa minutos. Longe disso. Na primeira parte, ​as de Eaton-Collins cheg​a​ram a jogar suficientemente bem para que, durante largos períodos, se pudesse imaginar uma história bastante diferente. Telma Encarnação ameaçou logo aos dois minutos, Flor Bonsegundo ficou perto do golo, ​a​ própria Capitã obrigou Tompkins a uma defesa importante e, até ao intervalo, as Leo​n​inas produziram futebol bastante mais convincente do que o resultado sugeria.​ Conforme eu tinha antevisto na véspera, não havia uma enorme diferença no potencial futebolístico dos dois conjuntos.

​O problema foi que o futebol, sobretudo o futebol europeu, tem este pequeno inconveniente para quem gosta de projectos​, de ciclos, de tecnocracias, de populismos, propaganda desabrida, ​de processos e ​de declarações programáticas. Em determinado momento, exige que alguém marque os golos.

O Brøndby marcou quatro!

E talvez seja aqui que devamos regressar, com alguma serenidade, às palavras de Bárbara Sofia Paulino, ex-futsalista, ex-atleta do benfica e ex-agente imobiliária. Há pouco mais de uma semana, a coordenadora-geral do futebol feminino do Sporting explicou-nos (ou tentou fazê-lo) que estamos perante "um novo ciclo", que o Clube está a construir "um diamante por polir", que está a ser criado um departamento de scouting exclusivamente dedicado ao feminino, que existe um espaço físico próprio em desenvolvimento e que, embora seja necessário ter alguma paciência, a ambição permanece intacta.

Tudo isto é muito interessante. Especialmente para os leigos ou "adeptos-comuns"

Só há um pequeno problema. O futebol tem uma tendência quase indecorosa para não respeitar cronogramas administrativos.​ O futebol joga-se sobre o relvado, joga-se com craques, com abnegação e com humildade, e não com discursos, ou com conteúdos para "encher" o linkedin.

Bárbara ​Sofia Paulino disse também que, nas competições nacionais, o Sporting é candidato a ganhar tudo. Disse que a pressão não pode servir de justificação para nada. Disse que os resultados ajudam a obter melhores condições. Disse, com uma franqueza que lhe devemos reconhecer, que ​"não vale a pena dizer que mudámos a estrutura​" se depois isso não for comprovado em campo.

Ora, esta última frase talvez seja hoje a mais importante de todas.

Porque esta noite, em Brøndby, tivemos precisamente a oportunidade de começar a verificar. E o resultado da verificação foi bastante menos elegante do que a entrevista. O Imperador Marco Aurélio escreveu-o quando em campanha na Germania, "a acção é a única verdade que permanece". Já a expressão idiomática há muito o declara, "palavras leva-as o vento"

É certo que o Sporting teve azar. O primeiro golo nasce de um autogolo de Ashley Barron quando as dinamarquesas praticamente ainda não tinham produzido coisa alguma. É certo que, a seguir ao 2-1 da magnificente Telma Raquel, obtido com um extraordinário remate de muito longe, a eliminatória chegou a parecer novamente aberta. E é igualmente certo que o Sporting criou oportunidades suficientes para que um resultado de 4-1 pareça, à primeira vista, uma descrição bastante mais cruel do jogo do que a sua realidade.

Mas o futebol europeu não é uma comissão de avaliação de boas intenções.

O Brøndby já tinha eliminado o Spartak Subotica com um agregado de 9-1 e chegava a este encontro depois de quatro vitórias consecutivas, com 17 golos marcados e nenhum sofrido nos três jogos domésticos anteriores. Não era, portanto, uma aparição fortuita de umas dinamarquesas que por acaso descobriram esta tarde que uma bola pode entrar numa baliza. Era uma equipa em boa forma​ e, habituada ao palco europeu.

Mas precisamente por isso a derrota interessa.

Porque aquilo que distingue um projecto ambicioso de uma simples sucessão de comunicados​ e de recitação de intenções com uma atitude mental positiva e muitos sorrisos à mistura... não é a qualidade da sua apresentação. É a capacidade ​de operacionalizar as mesmas, e de resistir quando o adversário deixa de colaborar com a narrativa.​

E o Sporting, depois de uma primeira parte em que poderia ter marcado, entrou na segunda sem a mesma clareza. Depois do magnífico 2-1 de Telma, teve cinco minutos para respirar. Teve cinco minutos para transformar a esperança numa ameaça real. Em vez disso, sofreu o 3-1 aos 66 minutos e o 4-1 aos 70. Em nove minutos, aquilo que podia ser uma eliminatória equilibrada tornou-se uma montanha.

Eis, portanto, o inconveniente de anunciar que se pretende mudar o chip das jogadoras.​ Para o prometer, convinha, talvez, ao Sporting, entregar o projecto não a ex-churrasqueiros de Minde, não a ex-advogadas ou a ex-imobiliárias. Só no mundo corporativo se crê que com discursos se conseguem resultados. Quando na realidade, requer-se organização, disciplina e humildade.

Francamente, o discurso Paulinesco vêm tão pejados de analogias sobre chips e diamantes, que temo que a SAD tenha agora entregue o projecto ou uma ourives ou uma técnica de informática. Francamente, se eu quisesse ouvir uma "mulher do futebol" dissertar por meio de metáforas e de chavões, ia antes ouvir a Mónica Susana ali do lado, que ontem venceu a Juventus em Turim.

O chip é uma coisa admirável quando aparece nas entrevistas. No campo, costuma chamar-se concentração, ​intensidade, eficácia, resistência à adversidade e capacidade de não conceder o jogo imediatamente depois de marcar.

É aqui que Bárbara ​Sofia Paulino, e não apenas as jogadoras, deve aceitar a parte que lhe compete. A responsabilidade por ter colocado sobre este novo projecto uma fasquia verbal extraordinariamente elevada.​ Quando se vive nas nuvens, bater com a cabeça no chão pode ser traumático.

Se​,​ na concepção Paulino, são candidatas a ganhar tudo, se não há desculpas, se a pressão não serve de justificação, se querem fazer melhor na Europa, se estão a construir um diamante​ e se estão a profissionalizar a estrutura, então o adepto tem o direito de perguntar, quando chega uma noite como esta, onde está exactamente a mudança que lhe foi prometida.​ O vento levou-a?

Não amanhã.

Não daqui a dois ou três anos.

Hoje!

Há uma década que quem lidera esconde um presente de fracassos atrás dum futuro supostamente radiante É perfeitamente legítimo pedir paciência. Mas existe uma diferença entre pedir paciência e pedir suspensão do juízo.​ Tal demanda, que Bárbara Sofia a reserve somente para si.

O Sporting perdeu por 4-1 em Brøndby e terá agora de vencer por quatro golos em Alcochete para ultrapassar a eliminatória. A segunda mão será a 30 de Setembro.​ Se eu acredito que o Sporting tem potencial para vencer as da terra de
Hans Christian Andersen​? Inequivocamente, mas não me parece que por 4-0 seja muito provável.

Neste momento, o futebol do Sporting "vive" quase exclusivamente de Telma e de Emma, que são as suas duas jogadoras de maior rotação. Se a Madeirense e a Espanhola se lesionarem, D.ª Bárbara Sofia pode fazer tantos discursos quantos lhe aprouverem, que o Sporting nem no top 3 da Liga BPI ficará.

Mas, aconteça o que acontecer, uma coisa ficou hoje mais clara do que estava há uma semana.

Um departamento de scouting é uma excelente ideia. Um espaço exclusivo para a equipa feminina é uma excelente ideia. Uma estrutura profissional é uma excelente ideia. Um projecto de médio e longo prazo é uma excelente ideia.

Só que nenhum desses elementos marca um golo.

E, no fim, o Brøndby marcou quatro.

Talvez seja esta a primeira e mais útil lição do tal ​"diamante​" por polir.

Antes de o lapidar, convém certificar​em-se de que não se está a polir apenas ​powerpoints, soundbites, microfones, holofotes e palanques, pois o futebol precisa de Leoas humildes e não de "águias" tranvestidas de pavoas ou de papagaias.

Até à presente data, o Sporting de Paulino só venceu 3 dos 5 jogos oficiais disputados, 2 deles em Alcochete contra duas das piores equipas da primeira divisão, e a outra, vs uma equipa de 4º pote, estreante absoluta.

A.C.F.

23/09/2026.


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